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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Ter | 26.11.19

1001 tons de depressão.

Helena Alegria

Hoje preciso de soltar estas palavras presas ao peito. Uma mistura entre dor e gratidão… Eu só sei que nunca esperei que o desespero supremo me trouxesse o melhor possível… Especialmente depois de me dar o pior que há em si.

Tornou-se recorrente dar por mim a comparar onde estava há um ano atrás e onde estou agora. Não me sinto a pessoa mais feliz, completa ou bem sucedida… Antes pelo contrário. Mas se eu me atrevesse a dizer que estou na merda — e lamento, mas não tem outro jeito de o dizer — não passaria de uma grandessíssima hipócrita.

Há um ano atrás a vida era um grande pesadelo no qual eu estava acordada. Sem esperança, alento, força, coragem… Saber que amanhã era outro dia era mil vezes pior que saber que o de hoje mal havia começado. Pensar em todas as horas que eu iria deitar pela janela fora simplesmente para voltar a dormir. Mais que perdida na vida eu estava perdida de mim. E se me perguntassem se foi a pior fase da minha vida, eu acho que não diria que sim…

Já senti muitas e variadas dores numa vida curta demais para tal. Dores onde queremos gritar e parece que há um vulcão dentro de nós, que espernear não basta e que as lágrimas não nos libertam do sofrimento preso cá dentro, nem de longe, nem de perto. Outras dormentes, em que o silêncio dói tanto que não se sente, em que as dores simplesmente nos correm pelo rosto enquanto permanecemos imóveis.

As batalhas que tive — que no fundo não as considero batalhas, só sofrimentos —, foram diversas e muitas foram as piores à sua própria maneira. Mas há sempre a que mais traumatiza, e depois dessa não há uma que doa tanto quanto a mesma. Há um ano eu já tinha essa "cicatriz" e só pensava "posso estar miserável, mas nada se compara àquele inferno". Para mim, que estava incrivelmente miserável, era uma benção poder pensar isto. Mesmo estando num inferno ligeiramente menor…

Hoje, que de inferno não tenho nada, só quebras regulares, não consigo expressar a gratidão que é estar onde estou. Acordar miserável mas não viver mais dentro dos meus próprios pesadelos foi o melhor que o desespero me deu.

Porque eu não tinha motivos para lutar, para seguir em frente, para nada. Eu própria era nada. Eu própria impunha limites em mim. Eu própria me impedia de dar um único passo que fosse. Eu era a minha inimiga, e a minha vida o alvo a abater.

Mas o sofrimento era demais para viver, e a morte era mais uma batalha que eu ia perder, depois de tantas onde fracassei. E por mais que me doesse continuar aqui, doía muito mais fracassar de novo e de vez, o desgosto e miséria na minha casa que já bastava e me pesava. Porque não há dia que eu não sinta as sequências que as minhas tempestades internas trouxeram para a minha casa, e para a casa daqueles que eu mais amo. E mesmo sentindo a agonia de cada segundo que tinha a mais de vida, foi neles que eu pensei… Na minha mãe que sofreu o triplo por mim, e no meu pai que já não está cá. Porque eu não podia dar mais um desgosto, muito menos esse. Mais um peso, uma batalha fracassada que cairia nos ombros de quem menos merece.

No dia em que eu me levantei para lutar por mim foi acima de tudo lutar por conseguir viver. Pelo oxigénio nos meus pulmões deixar de ser agonia, e por não saber quanto mais do mesmo eu aguentaria… Isso, e por não querer pesar mais na cruz de quem mais amo. Não estava na hora de viver, mas sim de encarar a vida como a luta que ela é.

E pensar que cheguei onde cheguei hoje é a maior benção. Hoje um dia miserável é uma benção porque nada se compara. Hoje a solidão é fácil. Hoje respirar é fácil. Hoje eu sou grata, e por mais que duvide de mim o tempo todo, eu dou graças a Deus, seja Deus o que for.