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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Seg | 03.12.18

Um relógio que come por mim.

Helena Alegria

Uma vaga memória que guardo da minha infância é, basicamente, ter fome. Deitava-me sempre tarde, assim como também fui sempre de acordar tarde... E algo que até era recorrente era nesses ditos dias de acordar tarde. A minha mãe perguntava-me se tinha fome, e não havia uma única vez na qual eu não dissesse que não.

Eu sempre tive uma relação um tanto peculiar com esta reacção do nosso organismo. Acho que só agora me apercebo realmente disso. Algo que devia ser tão natural para qualquer um de nós... Ainda hoje tenho dificuldade em entendê-la. Talvez seja sorte. Achar que a fome não me atinge só pode ser sorte. Não ter gosto em comer 99% das vezes, nem tanto...

A questão é que, por mais que eu dissesse que não, a minha mãe contradizia-me. Acho que a pergunta até deixou de se suceder. Afinal, mesmo hoje eu "nunca" tenho fome. Mas quando a minha barriga "dava horas", lá vinha a minha mãe... Para afirmar a minha fome! Independentemente do quanto eu negasse.

Para ser sincera, eu nunca fui muito apreciadora de comida. Sempre tive uma linha de pensamento onde só como por necessidade — ou, no máximo, por mania. Claro que há alturas em que como determinadas coisas e fico deliciada com o sabor, mas não passa disso. Sempre fui muito dada a guloseimas — os chocolates, principalmente, — chegou ao ponto de me tornar no monstro das bolachas cá de casa. Mas mesmo quando vou atrás de doces ou o que seja, não é necessariamente por ter fome.

É uma espécie de mecanismo. Há quem vá ao cinema e coma as pipocas todas enquanto o filme não começa — que nunca foi o meu caso, — e há quem vá petiscando bolacha atrás de bolacha como que se numa tentativa que o relógio acelerasse. Mesmo com os chocolates, às vezes é mais isso que qualquer outra coisa. Hoje em dia nem os aprecio tanto. Talvez isso seja mais para outra história, mas ainda assim... Sempre foram mais como vícios. Quer dizer, por mais esquisita que uma pessoa seja para comer, se é louca por chocolates, há de gostar de todos, não? Da maioria, pelo menos, eu diria. E esse nunca foi o meu caso. Se começam a inventar coisas a mais, perco o meu interesse de imediato! Mas isso é mais um modo de vida que uma biqueirice propriamente dita...

Sab | 01.12.18

A chuva que há em mim.

Helena Alegria

A minha mente é como uma televisão sem sinal. Acho que hoje, esse já não é tanto um problema como outrora foi... A dita chuva. Aquele ruído que não tem nada, mas não se cala. Aquela imagem que nada nos mostra, a não ser a representação de um vazio. Numa televisão, esse vazio é simplesmente uma falha na recepção do sinal. Na minha mente, a falta de vida e de tudo o que a mesma implica.

Como pode ser que um ser humano, com um coração pulsante ao peito, afirme que lhe falte vida? Afinal o que é viver? Podemos basear um conceito assim no modo como o nosso organismo se comporta?

O meu corpo é um oceano e a minha alma é prisioneira numa das suas fendas mais profundas. Quero regressar à superfície mas a força das águas é maior que tudo. E com ela estão todas as minhas palavras. Os meus sentimentos, as minhas feridas, as minhas mágoas... Todos numa profundeza que parece inalcançável.

Quero falar mas não tenho nada para dizer. O meu cérebro envia sinais às minhas cordas vocais mas elas não reagem. É como se estivessem engasgadas, não conseguem emitir um único som. É como se o meu cérebro e as minhas cordas vocais vivessem em corpos distintos.  E com isto, todas as ideias que eu já quis expressar, o vento leva-as para longe, sem dia ou hora marcada para voltar.

Agora tenho um vazio. Um vazio na garganta e outro no peito. Um vazio na mente, também, que de tanto que tem para dizer, nada diz. Sentimentos que inundam o meu coração, mas na verdade não têm história alguma por contar. Só ruído que nada diz, mas também não se cala. Só uma imagem que nada mostra, a não ser a ilustração abstrata de um vazio cheio demais.

E para todos os lados que olho só vejo a dita chuva. A maldita chuva...Essa que me envolve nos seus braços, forçando o desconforto a permanecer. Dia após dia...