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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Seg | 28.10.19

Seria, assim, o fim.

Helena Alegria

Eu disse ser o fim. A última lágrima que alguma vez derramaria. Dou por mim na mesma morada de outras vidas, doutros amores. Durmo na mesma cama amaldiçoada que outrora sepultou restos mortais de um coração partido. Eu disse ser o fim, mas aqui estou, de volta.

Numa morada que nada me diz, cheia de retratos quebrados e promessas vazias… O sol não chega cá, mas a chuva não me deixa em paz.

A paz que me resta é este silêncio ensurdecedor. O eco da tua voz a chamar pelo meu nome persiste em mim. As gargalhadas já vão distantes e aquele teu aroma não tem fim. Restam as dores que estas paredes guardam mas não contam. Os gritos e gemidos que estão cravados nestas paredes… Hoje, são fendas que não saram, e a chuva chora para dentro de casa.

Uma vez disseram-me que serias o meu fim… Não fiz caso. E eu declarei o nosso fim antes do próprio início. O meu coração não fez caso. Sobram lençóis de dormência e perguntas de como ainda aqui estou. Não pensei que voltar a amar fosse tão e mais doloroso que um amor acabado.

As trancas, enferrujadas, continuam na porta desta casa velha e cansada. O amor bate à porta e finjo uma surdez insuportável. Ela não te resistiu, e quando eu disse que seria o fim não foi. Quando eu sabotei o nosso começo eu não o soube fazer. Esta ferrugem separou-me de ti antes de te poderes, realmente, aproximar.

E há de chover até um dia finalmente passar. Espero que esta fechadura caia de podre e não me livre mais de amar. Mas nesse dia acharás tarde demais.

Sab | 12.10.19

Quatro anos depois.

Helena Alegria

Quatro anos passaram e quase não dei por eles. Só dei pela tua falta. Uma ausência já há muito rotineira, mas que, ainda assim, volta e meia não se encaixa nesta casa.

As memórias fogem-me pelos dedos... Até que as mais pequenas coisas, que jamais pensei recuperar, são despejadas em cima de mim, como chuva num jardim prestes a florir.

E recordar é celebrar a vida, já recuperar é renascer das cinzas! São essas, agora, as minhas grandes alegrias! No meio de tantas memórias que o tempo sopra para longe de mim, é díficil encontrar estas que tanto me fazem sorrir. Eu hei de te recordar eternamente, sendo essa a única forma de manter um pouco da tua vida viva... Mas a perda é uma ferida que, mesmo parecendo que se curou, nunca cicatriza.

A cada dia que passa as memórias são mais insuficientes. Penso todos os dias em tudo aquilo em podias estar presente, mas a vida decidiu que era tempo de estares ausente... E assim foi. Dói muito.

Por isso é que cada memória enterrada que volta à superfície traz a magia fictícia de viver de novo. É um puzzle por completar, que jamais estará inteiro. Diferentes peças voam consoante a nossa estação. Umas fogem para debaixo da mobília, outras encontro novamente, cheia de alegria... E nisto sou assombrada por todas aquelas que ficaram por chegar.

São enciclopédias em branco de histórias cuja narrativa não recordo. São episódios que ficaste por acompanhar e agora o teu nome não vem mais nas falas destes atos. Questiono-me por tudo aquilo que fiquei por saber. As aventuras que não terminei de ouvir, e aquelas que nem sequer me chegaram aos ouvidos. As peças que tinha por te mostrar e agora, no público, só resta um lugar guardado para alguém que já não está cá. Não dessa forma, pelo menos...

Quatro anos passaram e tanto aconteceu. As voltas que a vida deu... Eu sabia que largaríamos as mãos mas queria tanto poder, ainda, andar debaixo da tua asa.

Pergunto-me se te orgulhas de onde estou agora, e espero que estejas presente e olhes por nós... Porque tu estás connosco a toda a hora.

No outro dia perguntei à mãe do quanto que dançavas... E só sei que não fomos a bailaricos suficientes. Quando canto ninguém ouve, mas eu procuro por ti... Pelos fados que cantaste e aqueles que eu te escondi. Tenho o violino à cabeceira, e a armónica numa prateleira perto de mim. Tanta melodia que ficou por ouvir... Agora restam molduras, aqui e acolá, porque em todos os cantos ainda resta um pouco de ti.

A vida é algo muito especial, mas quando partiste levaste parte da sua magia contigo, e só tu já eras muita da magia da minha vida. E por mais que eu saiba a sorte que tive por te ter tido tanto quanto aqui estiveste, do meu lado, há coisas que sem ti perderam o brilho.

A vida continua, e ao fim de quatro anos a única coisa que permanece intacta é esta saudade por ti que carrego no peito... Mas o seu brilho perdeu o encanto de quando estavas por perto.

Qua | 09.10.19

Eu não te quis largar.

Helena Alegria

Naquele momento fechei os olhos com toda a força possível em mim. Tudo em mim chorou naquele momento. Tudo em mim escasseava de coragem para te largar. Não te queria largar. Ainda hoje dói. Dói tanto. E a ti? Quanto de ti sangrou?

Sofro de insónias desde então. A ansiedade por te ter de largar é maior hoje do que alguma vez foi. Acordo suada e com falta de ar. Tiraram-me tudo. Tiraram-me o chão. Tiraram-me de nós. Diz-me que te dói tanto quanto dói em mim!

De todos os nossos momentos nunca nenhum foi tão trágico. O início do fim. O dia em que tudo mudou. O abraço que mais nos separou.

Um mero abraço.

Nunca pensei que um abraço tivesse tanto poder. Um abraço entre afetos e palavras ternas... Ainda hoje ressoam no meu ouvido. Pergunto-me se alguma vez encontrarei melodia tão bonita quanto aquela.

Foram meses, semanas em queda, até tudo virar pó. Não suporto este vazio no teu lugar... O lado da cama sempre intacto, o lugar à mesa sempre por ocupar, o canto do sofá gelado desde que o deixaste.

Não era para ser. Não era para ser! Digo-me vezes sem conta na esperança de vir a crer. Procuro aquele conforto em todos os cantos mas em nenhum te encontro; o teu timbre em todas as palavras mas só o silêncio preenche os nossos cantos.

Naquele abraço o meu mundo deu voltas. Porque quando te larguei tudo mudou. E eu gostava de não te ter largado. Nunca tive tanta vontade de um abraço como quando naquele verão, envolvida nos teus braços. E se não fossem as tuas ternuras não teria doído tanto... Hoje não procurava as palavras certas, as tuas palavras, em todos os lares e arredores.

Perdi o meu lar que eras tu.

Perdi-me em ilusões de nós em universos que não chegam cá.

Nunca pensei ser capaz de encontrar tantas cores numa tela por estrear.

Acho que naquele abraço que jamais poderei definir, no meio do afeto e saudades sem fim, todos os meus sonhos atingiram o seu auge. E foi sim o início do fim. Porque eu entreguei-te os meus devaneios sem olhar para trás. E doeu tanto que ainda hoje a minha alma está por sarar... Eras demais para mim, e no momento errado não há certo que vença.

Pergunto-me se por outros planetas a nossa narrativa foi outra. Mas neste, só procuro por mais afetos assim. Procuro as almas que perdi noutras vidas, e espero que elas me recebam de volta tão bem quanto tu... Na verdade, procuro mais abraços de ti.

Seg | 07.10.19

Quantas vezes

Helena Alegria

Quantas vezes estivemos lado a lado

sem sequer nos tocarmos

de que perto era de costas voltadas

e longe era de mãos dadas

 

Quantas vezes a tua sombra

andou colada na minha

sem que se notasse a distância

que separa as nossas vidas

 

Quantas vezes o céu chorou

e a noite chegou cedo demais

 

Quantas vezes o céu se abriu

para que mais tempestades pudessem chegar

 

Por meu amor, nós somos caos

uma tempestade em alto mar

que nunca se saberá controlar

 

Ondas indomáveis que não se conseguem suportar

uma vez unidas são capazes de matar

 

Meu amor, eu queria-te do meu lado

eu quero-te ao meu lado

mas esta saudade é um veneno

que só mata se estás perto

 

Talvez tenha de aprender a viver

de costas voltadas para o mundo

porque foi em ti que encontrei vida

esperança e a tão desejada harmonia

que ao me aproximar se auto destruiu

Qui | 03.10.19

Queria ter te abraçado.

Helena Alegria

Ando em círculos. Corredores infinitos decorados por cómodas onde pousam retratos. Todos têm o teu rosto, todos me relembram de algum detalhe que nada mais foi além disso. Algo pequeno e discreto ao qual ninguém daria importância. Mas aparentemente eu dei…

Lembro-me tanto de ti. Lembro-me muito de todos os dias maus, os dias onde a chuva parecia não ter fim, onde apenas o meu fim parecia eminente. Mas lembro-me muito mais dos dias de sol, onde havia esperança e alegria e o futuro parecia ter algo de bonito, como um jardim prestes a ser abraçado pela primavera. É o que mais gosto de lembrar, esses dias bons que por mim nunca teriam chance de acabar!

Mas a primavera para nós chegou em forma de tempestade… Lembro-me da primeira trovoada… Daquela época de transição… Ofereceste-me um abraço e eu rejeitei. Talvez os nossos caminhos já estivessem destinados a se separar. Pelo menos ali. E assim foi. Destruiu-me, mas assim foi.

Mas tu ofereceste-me um abraço…

Eu lembro-me tanto de me ofereceres esse abraço… Nesse dia eu não te abracei. Não te abracei porque já me doía ter de te largar. Eu sabia que as nossas vias eram separadas. Pelo menos ali.

Hoje, longe, ainda dói. Às vezes dói mais ainda. Noutras parece que tomei uma grande anestesia. Mas tu não sais de mim. Percorres o meu sangue, gota a gota, dentro de mim. Por vezes o amor é um veneno tóxico que se espalha por todo o sistema.

E de algum modo eu ainda tenho esperança… Que o tempo certo não fosse aquele mas que ainda esteja por chegar. Que os nossos caminhos se tenham afastado para quando se juntassem novamente nunca mais se largarem.

Gostava que o nosso abraço tivesse sido assim. Gostava que a minha esperança fizesse sentido algures neste universo incompreendido.

Acho que todas as noites adormeço deparando-me com todas essas molduras… Nunca te agarrei, mas de algum modo também não te largo. Observo cada foto, cada pequeno detalhe que me trouxe até aqui. E gosto de ti… Assim, nas mais pequenas coisas, do princípio até ao fim. Por isso é que digo… Deus queira que a minha esperança não seja em vão, e que não sejas só mais uma dor que guardarei no coração.

Ter | 01.10.19

Chateia-me o quanto te quero.

Helena Alegria

Chateias-me a alma.

Sim, tu! Chateias-me a alma.

Tu e esse teu aroma que percorre cada rua de Lisboa mas não te encontro em nenhuma delas.

És a sombra que mais vejo mas não acho. Percorro multidões e por mais que te veja não te encontro. É sempre uma rasteira desta calçada mal arranjada. Nunca estás lá.

E chateio-me.

Chateio-me com os sorrisos que não voltei a ver e com as gargalhadas que tanto ecoaram no meu ser. Chateio-me com as lágrimas que secaram porque nunca mais te voltei a ter... Aqui. Perto de mim...

Porque a vida conspira contra o meu coração...

Estás longe e não estás. Vejo-te por todos os cantos, becos e esquinas. São sempre vultos que viram pó, partidas, ilusões de uma saudade embriagada.

Mas se estivesses aqui também estaria chateada. Chateada por ressacar de quem não posso alcançar. Chateada porque cada sorriso e gargalhada fazem-me querer chorar...

Chateada porque me chateias a alma! Quero-te e não te quero! Não te quero, mas... Ai, como te quero!

Embalada por músicas que um dia ouvi de ti. Dói o quão longe estás de mim. Mas esta ressaca não me deixa pensar direito. Quando chegas eu quero fugir, e quando vais não te quero largar... Na verdade eu só queria saber arriscar.

Arriscar para te querer e só querer. E para que quisesses também...