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Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Seg | 17.08.20

No fim do arco-íris.

H. Alegria

Parece que foi ontem. Perdida de amores e perdida do amor... Foste um conflito interno, foste a maior lição que me pesou no peito até ao dia de hoje. Foste tanto e tão pouco.

Ainda me lembro de quando achava que o amor era o pote de ouro no fim do arco-íris. De como todos diziam para ter calma, que eventualmente apareceria alguém... Mas o meu entusiasmo era incontrolável. E por mais que eu não pudesse forçar nada, aquela ansia estava lá constantemente. A curiosidade de saber mais!

No entanto, a dada altura deixou de haver arco-íris, e o pote de ouro era só mais uma lenda caída no esquecimento. Lenda essa que tu trouxeste de novo à luz do dia, e eu não me cansarei de dizer o quanto eu não queria.

Por N razões e por razão nenhuma. Não era o momento, não era a ocasião, não era nada! Mas eras tu. Como uma bússola não conseguia evitar ir noutra direção que não a tua. E de todas as formas e mais algumas eu fintei o compasso tanto quanto pude, fechei os olhos à espera de ser guiada para qualquer outro sítio, e mesmo para sítio nenhum... Até que me rendi. Todos os esforços que fazia eram em vão, acontecesse o que acontecesse eu permanecia sempre ao pé de ti. E de aguentar uma vida sem saber que existias, a aguentar horas sem saber dos teus dias, dei por mim em minutos a contar os segundos para estar novamente junto a ti.

Confesso que muitas vezes foste um sufoco. Confesso que foste demasiada areia para o meu coração... Porque não, não era o momento nem a ocasião, nem coisissíma nenhuma, mas lá está... Sabe lá alguém a razão do coração.

Eu perdi-me de amores por ti, e encontrei tudo o que precisava em mim. Por mais dias de chuva que me tenhas trazido, por mais bússolas que me tenhas desorientado, valeste tanto a pena e nem sabes.

A menina que eu fui, e ainda hoje trago algures em mim, achava que encontrar o amor seria o equivalente a encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris. E no meio de todo o entusiasmo guardei os mais fortes poemas que o meu coração recitou, revisitei-os vezes sem conta como se o tempo tivesse parado. Contigo foi diferente, um recomeço cuja descrição não consigo detalhar, mais um trilho de me conhecer a mim melhor que ninguém...

Porque sim, se há amor que tenho encontrado é aquele que vou cultivando por mim. E o pote de ouro? Aparecerá quando tiver de ser.

Qui | 13.08.20

Lua nova.

H. Alegria

Já lá vai o tempo em que fomos felizes. Tempos em que as palavras se estendiam como as profundezas do mar, em horas quietas em que só paira o luar. E eu pergunto-me o que foi feito de nós? Onde estão as fases que levaram a nossa beleza a mingar? E como a lua nova passar despercebidos por quem conta constelações.

Já lá vai o tempo em que fomos presentes. Eu para ti, tu para mim. O tempo em que os nossos caminhos não só se cruzavam como eram paralelos. Onde a distância era um mito e a sombra um do outro, um abrigo. Mas a nossa estrada chegou ao fim, com sinais que nos fizeram correr em velocidades diferentes, trânsitos que nos impediram de escapar aos contratempos. Sempre achei o teu passo mais acelerado que o meu, e não me enganei.

Hoje o céu, outrora tão estrelado, é denso e escuro. Sento-me no areal a observar as ondas há espera de ouvir o teu nome mais uma vez. Sei que foi maré que já vazou... Mas é isso que a esperança nos trás, uma crença desmedida que o que partiu pode voltar. Mesmo sabendo que não, cremos até não querermos mais. E está tudo bem.

Contigo estava tudo bem. E talvez por isso sinta tanta falta do conforto do porto seguro que me foste. Pela segurança que hoje parece incerta. Pelo afeto perdido algures no meio desta imensidão de grãos de areia... Talvez alguém o tenha achado. Aliás, talvez alguém te tenha achado. Com pena minha, e da minha crença desmedida que teima em querer. Mas está tudo bem.

E espero que também estejas. Seja a surfar ondas até que volte o brilho do luar, mesmo que com outro alguém a apreciar a imensidão deste... Seja por outros areais, sem amores, mas bem. Que seja como tu quiseres, porque eu creio que estarás bem. Dum jeito ou outro eu creio que estás bem... Uma esperança, verdadeiramente dita... Pois essa sim, nada tem de desmedida.

01.08