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Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Sex | 31.08.18

A amargura tem nome.

H. Alegria

Olho à minha volta... A janela revela a escuridão que a noite trás. O quarto está desarrumado... Diria até caótico, nunca o deixei chegar a este estado.

Estou deitada, mas já nem me apercebo. Quando não estás de pé por mais de dez minutos o estranho é estar de pé.

Não estou limitada a esta cama, acho que ela é que se limitou a mim. Deixei te ter esperança de arranjar alguém que se sentasse do meu lado, e no meio disso, desisti de mim.

Podia falar com A, B, ou C. Mas conversas supérfluas não me enchem a barriga. Se bem que sem elas nunca deixarei de estar sozinha... Porque eu estou sozinha.

Ter vinte e poucos anos e estar sozinha é complicado. Mas pergunto-me se é isso que me incomoda... Porque eu olho ao espelho e não estou disposta. Não estou disposta a iniciar conversa, a conhecer alguém, a ver e estar com algo que não é a minha almofada.

Talvez ainda não tenha superado a amargura que esta realidade me trouxe. Uma amargura de nome Solidão. Porque eu penso em tanta gente que tinha do meu lado... E hoje não tenho ninguém. Nos amigos que eu tanto estimava... Onde foram todos eles? Os dias passavam e um por um, pouco a pouco, pôs um ponto final em qualquer sentença que trouxesse o meu nome.

Talvez eles não estivessem do meu lado. Talvez apenas eu estivesse de ombros apostos para quando as suas cabeças tombassem em tempestades de lágrimas. Mas dizer isto custa não?

Eu acho que sempre consegui ver bem. Sempre vi o meu esforço e dedicação pelos outros. Sempre fiz por dar valor ao que tinha... Eu sabia que aquilo era tudo o que eu tinha, e sabia que se não estimasse ficaria sozinha; ficaria sem nada, vazia. Mas do outro lado da moeda isso nunca importou. Eu era o amor de pessoa que simplesmente estava lá. E quando deixou de estar... Não fez falta.

Porque lá no fundo eu nunca fiz falta. Lá no fundo eu tapei buracos para que barcos alheios não afundassem. Lá no fundo eu fui uma ponte. Lá no fundo eu fui como uma lanterna que atenuava a escuridão, e quando encontraram o seu rumo o sol brilhou de novo... E na luz do dia usar uma lanterna é desperdício de energia.

Ou então não... Talvez tenha sido só por circunstância. Talvez todos nós andássemos a adiar o inadiável. E hoje aqui estou eu... De olhos postos em ti. Não sabes o quanto eu queria saber como é um verdadeiro abraço! No entanto só a minha mão pode acariciar o meu cabelo, e eu sussuro para a minha almofada como a solidão tem um gosto amargo...