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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Qua | 06.11.19

A carta que não te entreguei.

Helena Alegria

E ali estávamos nós. Quarta-feira ao final da tarde, numa carruagem de metro, sentados frente a frente. Talvez não fosse assim tão final de tarde, ou talvez nesta quarta o metro viesse estranhamente vazio...

O nosso silêncio rasgava a minha alma. Mas eu sabia de cor as palavras que o quebrariam, e só essa dor já era, em si, fatal.

"Estamos juntos", disseste. E nada mais seria de esperar da minha boca se não um rouco "eu sei". Tão natural quanto as lágrimas que me escorrem pela alma... Tu perguntas "como", e parece que estou a viver tudo de novo.

Há semanas que os meus sonhos mais tristes ecoam o vosso amor, ambos os vossos corações a pulsar num só tom. Há semanas que esta alma sangra, que as lágrimas seguram uma imensidão de dor... Dor essa que não sabe se há de suplicar por certezas ou fugir das mesmas.

Desde o primeiro dia em que vi os teus olhos nela, eu soube que havia um livro em branco por escrever. Um livro com o nome dela, e não com o meu. Deste-me cabo do juízo, sem saber... Foi por isso, por prever o que acabaria por acontecer. Chorei semanas a fio, fechei-me do mundo para fugir de ti. Queria-te perto mas tão longe, porque não seria capaz de te encarar com ela ao olhar para o lado. Comecei por vos dar espaço porque não queria ser teu fardo. E de dia para dia a noite era mais sombria... Por saber que, na manhã seguinte, o teu sorriso brilhava mais que ontem... E ela era a única razão.

Nunca quis este amor, e boa parte de mim sempre o renegou. Tranquei esta casa, que é o meu coração, de todas as formas e feitios. Tranquei-te já cá dentro pois era tarde demais para te expulsar. Hoje, parte de mim ainda chora, e não te sei explicar. Este sofrimento que este amor me deu, sem nada teu precisar... Eu achava difícil amar até te amar demais para continuar. Aí difícil era parar de amar, e doloroso querer fazê-lo.

E se pudesse voltar atrás e fazer tudo diferente... Não dar costas e ir embora sempre que a via à tua frente... Eu acho que voltaria a partir com um coração de cacos. Tudo isto porque amar para mim era ver-te feliz, mesmo que eu ficasse em pedaços.

Não nego o quanto te quis, e ainda hoje, quero, se me perguntares direi que sim. Mas para mim amar é mais que querer e ficar junto de, suplicar a presença de alguém que é valiosa demais para deixar voar para longe... Talvez te tenha amado das formas erradas, formas conturbadas e prejudiciais ao meu frágil coração... Mas amar para mim é ter o amado feliz, seja perto de mim ou não.

Eu vejo como os teus olhos brilham e são facas no meu peito. Mas se eu te amo, prefiro ver o teu foco distante, desde que os teus olhos permaneçam cintilantes.

Querer a felicidade de quem amamos não é fácil, de todo. Mas se fosse de forma diferente, seria mesmo amor?

Nas cartas que te escrevi vinham as lágrimas que agora assino, mas acho que hoje sim, consegui escrever tudo aquilo que te queria há muito ter dito.