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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Qua | 07.08.19

Dores que guardo de ti

Helena Alegria

farta de olhos inchados e vermelhos
de narizes entupidos que só me afligem mais
desta piscina invertida no meu queixo
que percorre a minha face até rapidamente o inundar

farta de sofrer por não poder sofrer
querem ver-me bem, eu sei
mas se são lágrimas que a minha alma oferece
porque tenho eu de as esconder?

farta de ser o cancro de todos
esta doença na minha cabeça é minha
mas eu sou uma doença na vida dos outros
um tormento interno que dói em quem está perto

farta do silêncio que me pedem
da vergonha do eco que esta dor provoca
não chores pois é tarde e tudo se ouve a esta hora
não faças tanto barulho, parece mal a quem aqui ao lado mora

e o silêncio assim torna-se a minha verdade
uma verdade de fracos e oprimidos
não me bastava a mim ter a mente fraca
e agora nem devo nem posso expressar-me

não sou de ferro e choro, grito
e parto a louça se nada mais há além dos meus próprios cacos
mas sentir esta dor não devia ser pecado
e se a guardo ela mata-me e leva-me pedaço por pedaço

ninguém carrega no ventre por nove meses
para que esta desgraça aconteça
a desgraça de que o amor não chega
para curar uma mente doente

e dói, como dói, ver a tua alma rasgada em sangue
enquanto o corpo está intacto eu sei que te causo dores agoniantes
sei que me queres bem e um sorriso te chega
mas mãe às vezes a minha dor rebenta

deixa-me chorar, soluçar, gritar
se eu cair ao chão eu levanto mas só depois desta convulsão passar
deixa-me sofrer nem que seja para esta agonia se libertar
e deixar de ser prisioneira de todas estas dores que, por ti, tento aprisionar

 

[ algures em abril de 2019 ]