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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Sab | 02.03.19

Fechada numa solidão de memórias.

Helena Alegria

Eu só existo numa sala vazia. Deitada no chão frio com um velho cobertor que sempre me acompanhou. Talvez o único a sobreviver a todas as tempestades e devaneios sem se perder pelo caminho...

Uma sala grande onde cabia tanta coisa, mas apenas eu a preencho. Eu e memórias quase tão vazias como este espaço. Vazias porque o tempo as despejou. Assim como descascou estas paredes enchendo-as de idade e nada mais.

Molduras cheias de pó que vão até ao teto, e eu olho-as vezes sem conta. Numa sala sem janela para que nada mais eu possa espreitar... O mundo lá fora é quase tão vazio quanto este espaço sombrio.

Os meus ossos já só abraçam temperaturas menores, tendo choques se o calor se aproximar. Eu fiz de tudo para lutar contra este tempo, mas o mundo lá fora é maior que eu.

Nestas fotografias que só contam tragédias de fim, ainda consigo lembrar-me de quando o sol brilhava, e quando havia estrelas a brilhar na minha direção, aos pares e cintilantes no rosto de alguém que eu pensei capaz de derrubar estas paredes. Foi tarde demais quando todos, pouco a pouco, um por um, deixaram o seu tijolo neste igloo sem saída.

Ainda assim há dias piores. Há dias em que sinto saudades de como o sol fazia cócegas na minha pele, em que me lembro de gargalhadas e confortos que desvaneceram com o tempo. As fotografias também desvaneceram. Desses dias tão felizes pendurados nestas paredes, esse pouco cuidado que o tempo lhes deu lembra-me das piores coisas possíveis. Chuvas torrenciais e nevões. Os quatro elementos, até, a juntarem-se em tormentos.

E nisto, o vento também vos levou um por um. Até quem eu pensei já ter presença vitalícia nesta vida. Ficou uma torre de blocos pesados que me escondem. E eu pergunto-me se as palavras e mágoas que me remoem por dentro também conseguem abalar estas paredes e fazê-las ceder...