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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Qui | 29.08.19

O dia em que tu apareceste...

Helena Alegria

Vivi agarrada a ilusões. Cheia de sonhos que sonhava em vão. Porque a fantasia dói, mas nunca tanto quanto cair em sólido chão.

Amar é complicado.

Acho que me tinha esquecido do quão complicado é. E do quanto dói estar perto mas tão longe ao mesmo tempo.

Na verdade, esquecera tudo o que outrora soube. Para bem e para mal, o amor era uma página em branco que eu escrevia quando pousava a cabeça na almofada. Canetas temporárias, mestres da ilusão. Não trazem verdades, só devaneios do coração...

Passei a temer o amor. Mas sonhava com ele a cada cinco minutos... No meio de um oceano de fantasia agarrava-me a pingos de verdade. Agarrava-me a lagos que já secaram, memórias de um passado que não sarou. Nunca pensei que me conseguisse enganar tão bem... Presa a amores extintos que hoje só existem em museus arqueológicos. Negando a realidade e o presente. E assim a dor tornou-se fácil.

Até ao dia...

O dia em que tu apareceste, e que mergulhei em concreto. Mas eram muitas as cicatrizes, e a minha almofada ainda era o meu melhor amuleto. Tão fácil ignorar o batimento acelerado. Pelo menos a início eu achei fácil... Até que deixou de ser. Até que os mares que outrora me rodeavam, agora transbordavam de mim. As dores que eu guardava foram recuperadas pelo museu, e os destroços ao meu peito ganharam novos nomes, cores e formas.

Ainda hoje nego este sentimento. Esta coisa estranha que altera o meu humor e que só te quer perto. Mas no entanto só te afastou... Hoje a minha almofada sonha contigo, e eu peço-lhe silêncio. Chove no meu espaço constantemente, estejas tu presente ou ausente. É como uma nódoa no meu vestido preferido, impossível de remover. Mal sabia eu que haviam nódoas tão bonitas... Eu ainda fecho os olhos esperando que, quando os voltar a abrir, já não estará lá nada. Mas lá está, sempre, com a tua assinatura.

Vejo-me obrigada a reaprender o que é isto de nome "amor". Simplesmente aconteceu e não deu certo. Sei de menos para ter este coração tão irrequieto. Pergunto-me como é possível apaixonar-me por tão pouco, algo que surgiu tão naturalmente mas ao mesmo tempo... Sem qualquer explicação aparente. E neste meu jeito tão desajeitado, perdi aquilo pelo qual nem sequer tentei.

Só que ainda quero tentar.