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Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Ter | 28.01.20

Porquê correu tão mal?

H. Alegria

Houve palavras que ficaram por dizer. Ou será que não?

Dou por mim a contar cada estrela no céu, como fizemos naquele serão. De jeito atrapalhado deixei tudo sem jeito. Sem saber o que fazer estraguei tudo antes sequer do sol nascer.

É assim que as estrelas se apagam. Brilham noutros céus... Dão norte a outros corações... Não que eu alguma vez me tivesse guiado por esta ursa menor. Achei-a sempre tão traiçoeira que nem uma raposa. Eu sei que foi por isso que correu tão mal.

Hoje pergunto-me como é que, sequer, me embalei por tais sussurros! Tentação, talvez? Aquele surto de "claro que não me vou atirava desta varanda mas como seria cair daqui". Foi esse o amor que senti por ti. E assim como veio, passou. Que nem um surto insano, exatamente. Porque havia qualquer coisa em ti. Tudo era errado mas num décimo de nós a sintonia era absoluta.

É aí que o sol é visto aos quadradinhos e os dias são cinzentos.

Chove constantemente. E como eu queria que o verão voltásse! Os dias compridos e os serões estrelados. O som das ondas à beira mar. Um amor que é musical. Mas os nossos ritmos só combinavam na segunda parte da canção... E eu temi tanto que perdi a sinfonia. Tornei-me ruído puro e nada mais. Observava-te, nem de perto, nem de longe. Não havia verso que combinásse, nem contigo nem com ninguém. Mas havia quem tivesse o mesmo refrão que o teu. E foi assim que o meu lugar se desvaneceu.

Sabes quanto tempo demorou para o verão chegar? Tu davas-me um dia de primavera enquanto tudo o resto era um solstício de inverno sem fim.

Sem melodia, sem alento... Perdi-me de ti. Durante muito tempo o meu ritmo apagava quando o teu se aproximava... Ainda hoje, acontece, de quanto em vez.

Mas ainda hoje me pergunto o que poderia ter sido diferente. E se eu me tivesse conjugado com o teu refrão? Perdi-me da estrela polar por medo da raposa. Na verdade a única raposa era eu. No meio de surtos, alucinações musicais... Um drama de ritmos incompreendidos.

Se calhar desde o início que quis conjugar numa só letra as nossas canções. Mas nunca quis admitir. Se calhar, se fosse hoje, era diferente. Mas se fosse um serão novamente, bem no pico do verão, e nos sentássemos a contar as estrelas ao ritmo do segundo verso, já quase no refrão... Acharíamos só um surto?

Pena que não era essa a estação.

O amor é da primavera... Mas o nosso? O nosso não.

O nosso amor não teve estação, só as minhas palavras embaladas pelo vento. Enquanto de ti houve uma única palavra, o silêncio.

Talvez os nossos ritmos não tivessem sido tão idênticos...