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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Qui | 07.02.19

Pressões faciais que a cortina não me esconde.

Helena Alegria

Como num sopro, a mesma ideia repete-se. Como num sopro a mesma ideia se desvanece. Pensamentos constantes mas tão inconstantes. Pensamentos que me perseguem e assombram, mas só por curtos instantes.

Assim como o céu nem sempre chora, e o sol nem sempre brilha, no meu peito nem sempre há vento, mas quando há é sempre o mesmo tormento.

Pressões que a minha alma exerce sobre mim fazem-me questionar o quão grande consegue ser o que nada tem de palpável. Ou o quão forte consegue ser algo tão pequeno e não observável.

"Cede, desiste, desaparece."

Vozes que ecoam com cada vez mais força mas cujo tom é irreconhecível. Sentimentos que vão além de ser, que vão além de estar e poder.

Poder estar aqui, poder inspirar e expirar tantas vezes quanto as que o meu corpo pedir. A pressão de ter e o peso de nada fazer. A aparência do que é simples quando atrás da cortina existe toda uma complexidade inexplicável. A grandiosidade destes bastidores está dentro de mim e de ti, mas quando nos sentamos na plateia de outrem parece que todo o esforço é em vão.

As lágrimas? Em vão. O suor? Em vão. O empenho? A dedicação? Em vão. A persistência? A fé? A coragem? O medo? As dúvidas? Cicatrizes cheias de sangue derramado que jamais se esquece? Em vão. Em vão. Tudo em vão.

Em vão...

Falamos constantemente em opiniões alheias e como essas sim, essas são em vão. Mas quem é que sussurrou ao teu ouvido todos os teus medos e inseguranças? Não foi, de certo, quem se apresenta à tua frente.

Quando estás em cena ninguém se levanta para dizer o que quer que seja, ninguém te diz o quão errado é, o quão inútil, imbecil, ou até equivocado. Mas há, de facto, um julgamento. Olhas ao longo desta plateia que se segue à procura de faces que por ti falem. Cada expressão conta-te uma história, mas essa história és só tu quem a lês, só tu a vês.

As opiniões que te assombram são, na verdade, fruto da tua interpretação, e nunca ver de fora foi ver uma obra por inteiro. Nunca a capa de um livro contou mais que ler cada página por inteiro. Nunca um título revelou mais que palavras soltas, perdidas num texto cheio.

E talvez esta vida não seja uma peça de teatro. Talvez não... Mas ainda há bastidores para tomar conta de cada luz e cada som. A tomar conta de detalhes maiores e menores, cenários mais escuros, mais claros, mais pequenos, leves, grandes e pesados.

Numa alma, num coração, mente, subconsciente, e tantas outras formas que fazem este ser ser ciente, vem toda a informação para esta única produção. O contexto que constrói esta personagem em busca de saber viver antes de o fazer...

"A vida é um palco de teatro que não admite ensaios. Por isso, cante, chore, ria, antes que as cortinas se fechem e o espetáculo termine sem aplausos."

Assim disse Charles Chaplin, como que se um abraço fosse para lembrar que feições nítidas adiante não valem tanto quanto o que este palco guarda atrás.