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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Sab | 05.01.19

Quadros de encantar, esquecidos e por amar.

Helena Alegria

Nós, raparigas, crescemos rodeadas de histórias de príncipes encantados, que um dia virão num cavalo alado para viverem connosco "felizes para sempre". Algumas de nós talvez se agarrem mais a estes contos e os tragam consigo ao longo dos anos. Mas nem todas o fazem.

As minhas histórias de príncipes encantados eram os filmes que passavam na TV. As novelas e todos os pares românticos que ainda hoje me fazem sonhar um pouco, por mais que não admita.

Como romântica incurável que sou, sempre procurei o amor ou algum exemplo do mesmo. Sempre estive rodeada por muito pouca gente, especialmente no que toca a rapazes.

Nos tempos de escola era a miúda das paixonetas. Não sabia o que o meu coração dizia, e qualquer direção que o fizesse palpitar era um conto por nascer... Claro que encontrava algumas constantes pelo caminho, todas elas um tanto fictícias. E devido a toda a ficção, por mais que o meu coração dissesse "ele é o tal", eu continuava à busca de uma história que fosse mais que umas quantas folhas de papel.

Os anos passaram e dei por mim em casa, com o tempo a levar as poucas pessoas que me rodeavam, uma por uma. Isso foi complicando os meus contos de fadas, até ao dia de hoje.

E inexperiente como sou, — não falo simplesmente de romance, mas sim de pessoas no geral — dei por mim com as histórias de amor a tornarem-se em filmes de terror.

Hoje, sou um quadro antigo pendurado numa casa abandonada. Refém do pó que se acumula e da humidade que o ataca. Ninguém entra por estas portas a não ser para sair de imediato. Ninguém estende a mão para prestar os devidos cuidados. Esquecido e abandonado, com um mundo lá fora, tão recheado de arte. Arte essa, sem noção de que esta pintura exista, e tenha sido deixada para o esquecimento.

Não alcances a minha mão, pois eu desconheço a textura de uma pele que não seja a minha. Não me abraces pois os meus cacos são um castelo de cartas que ao mínimo toque pode ser derrubado. Não me abraces. Não me perguntes sobre a minha vida. A inércia desta casa abriu as portas a aranhas que tecem ao meu redor, e eu tenho tenho medo de morte das mesmas. Acho, até, que já morri por dentro.

Não me mostres mais romances, nem casais apaixonados. Não sabes o que custa ter o coração congelado pelo mundo, por ninguém o querer aquecer. Não me mostres como eles se tocam, como se aconchegam, como se beijam, como se agarram. Não me mostres como ele a olha nem como ela lhe sorri. Não me mostres nada, porque nada é pior do que ver amor em terras de não amados. Querer tocar mas desconhecer o mundo. Querer amar mas desconhecer o próprio peito. Querer sentir tudo mas não ser capaz de sentir nada.

E se me deparasse com a oportunidade de tudo conhecer e mil aventuras viver, fugia.

Porque é tão fácil fugir e continuar sem existir, do que olhar o terror nos olhos e atravessar pelas teias à minha volta, agarrar-me ao desconhecido e viver. Finalmente viver para sentir este coração aquecer.

O amor tornou-se para mim um puro e autêntico terror...