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a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

a m o r o s a m e n t e

Talvez sinta demais, mas se não fosse assim perdia a graça.

Seg | 04.11.19

Se há dedo por apontar, que seja ao triste desta história.

Helena Alegria

Dou por mim a ler um texto cuja narrativa não desvenda a sua direção. Fala de uma moça que tem uma vida cómoda, um bom emprego, teve o seu primeiro carro em segunda mão aos vinte anos, e mais uns quantos detalhes do estilo. Dou por mim a perguntar: o que é que este texto adiciona? Ela fala da família e do esforço que houve para que ela bem sucessedesse na vida. E como as pessoas a ler achariam que ela seria uma "mimada que nada sabe" quando é tudo graças aos seus pais, que fizeram tudo (e mais além) ao seu alcance para que ela pudesse chegar onde chegou. E que foi por ela saber aproveitar o que eles, a muito esforço, lhe proporcionaram, que realmente chegou onde está.

Mas eu pergunto-me... Para quê tanta inveja? De que serve? A sério que há tanta a ponto de uma pessoa, com uma vida completamente aceitável sentir necessidade de escrever sobre a mesma? De forma a declarar que não é por "estar bem na vida" que é uma mimada ou menina rica? Será assim tão necessário uma pessoa sofrer e conhecer a dor da planta dos pés à raíz do cabelo para saber o que é a vida?

Já devia ser senso comum que a vida é diferente para todos, assim como as oportunidades e/ou dificuldades que batem à porta. Com tanta variedade de vida, como poderíamos nós querer tudo igual? Sortudo aquele que não passou provações de maior! De certo que teve outros desafios na sua vida, mas mau seria todos nós conhecermos o auge do sofrimento para "sabermos o que é viver".

A vida não é uma fórmula que quem não cumpre deve ter todos os indicadores apontados em sua direção. Há vidas miseráveis, sim... Mas não são "invejas" que as facilitam.

Ser criança e tornar-se adulto no tempo certo deve ser tão bom. O que há nisso merecedor de julgamento? Nada! Triste é crescer cedo demais. Mas isso não invalida nada. Se é mau? Tudo tem lados maus e lados bons. O que seria se cada casa sem condições suficientes para sustentar uma criança a entregasse para adoção! Há tantas riquezas na vida... O que importa é não falhem todas. Tendo algumas já é bom, que vidas perfeitas só nos perfis de instagram que estudam cada fotografia a ser publicada. E são só isso... Fotografias, que pouco ou nada contam.

E mesmo aquelas que teimam em não crescer... Talvez possamos chamar mimados aqueles cujos pais sustentam todos os caprichos, mas a responsabilidade não deixa de ser deles próprios, dos filhos. A vida de cada qual é completa responsabilidade do próprio. Verem-se obrigados a trabalhar porque os pais não os "querem mimar mais" não é crescer. E os pais errarem na educação de um filho não é argumento. Por mais laços de sangue que hajam seremos sempre indivíduos, por mais necessidade que haja por comunidade somos nós e a nossa vida e todas as escolhas nela englobada são nossa responsabilidade.

O sítio estou hoje é fruto meu e somente meu, talvez condicionado ou favorecido pelo sítio onde nasci, pela família com a qual cresci, mas se o dia de amanhã será melhor ou pior depende 100% de mim e de mais ninguém. Se a vida me quiser desafiar e complicar, a responsabilidade contínua a ser minha na forma como enfrento as pedras que ela me coloca no caminho. Em conjunto vivemos somente por nós próprios.

E triste é aquele que vive para chorar pelo que lhe falta, simplesmente porque é mais fácil do que valorizar aquilo que tem, seja muito, seja pouco.