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Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Amorosamente

Meros pensamentos dramatizados em verso e em prosa

Dom | 29.07.18

Uma pessoa que se isola fica prisioneira de si mesma.

H. Alegria

Por muito ou pouco que socializemos somos seres que precisam de comunicar e interagir com outros. Ao não o fazermos corremos o risco de enlouquecer.

Claro que, hoje em dia contamos com uma ferramenta quase caída do céu, a internet. Mas, ainda assim, ela não soluciona os nossos problemas.

Saber que a 3654 quilómetros de distância está alguém que nos irá ouvir sempre que necessário, a torcer pelo nosso sucesso, pela nossa vitória, pronto para mostrar que ainda há quem se importe com o nosso bem estar, e tudo isto de forma genuína, é, sem dúvida, magnífico. Mas nem sempre podemos ver essa pessoa, ver mesmo, com os nossos olhos, de perto, em 3D, em carne e osso; nem sempre podemos abraça-la e aparar-lhe as lágrimas; nem sempre podemos estar perto, e aproveitar o dia lindo que está lá fora, aproveitar um sorriso, ou mesmo uma sequência de tolices sem nexo. E isso dói... E sim, essas relações genuínas que por vezes temos a sorte de encontrar a quilómetros e quilómetros de distância, são um grande consolo, e um grande abrigo; são algo maravilhoso que a tecnologia adicionou às nossas vidas, mas não chegam para um sobreviver.

O contato físico é nos essencial. Faz parte do nosso ADN. Sentir o perfume daquela amiga tão vaidosa, sentir o abraço daquele amigo tão carinhoso, sentir a presença daquela pessoa que está ali pronta, mesmo ao nosso lado, para nos secar as lágrimas assim que levantarmos a cabeça do seu ombro.

Faz falta olhar nos olhos, faz falta dar as mãos, faz falta sentir perto, faz falta o calor de outro coração.

E uma pessoa que se isola fica prisioneira de si mesma.

Porque nós ouvimos histórias constantemente, e criamos as nossas próprias sem darmos conta. Se de repente não há ninguém do nosso lado, só inventamos alucinações de nós próprios.

Porque com companhia ouvimos como vai o romance de fulana, e ouvimos como se deu a mais recente briga daqueles dois rapazes que já ninguém nem se lembra do porquê do seu desentendimento.

Porque com companhia, vão surgir amizades, vão surgir amores e desamores, vão surgir azares, vão surgir surpresas e tantas outras coisas...

No entanto, aquele que se fechou em casa, ou que se fechou na sua rotina de trabalho-casa, de escola-casa, aquele que já não se lembra mais do que é o mundo lá fora, do que é fazer parte da vida de outras pessoas e das suas histórias, só sabe o que é o seu reflexo e as variantes onde a sua imaginação o engole.

Aquele que está sozinho só conhece os quatro cantos da sua casa, só conhece os pequenos detalhes que de vez em quando se alteram no espelho de casa de banho, conhece apenas as suas introspecções que o afundam em angústias, tudo isto enquanto contempla um livro de páginas cheio... Mas ausente de histórias por contar.